Um Duque na Boca do Inferno


Há onze anos, fruto de investigação, escrevi este artigo sobre a passagem do Duque de Windsor por Portugal, acompanhado de sua mulher, a americana Walis Simpson. Prometi a mim próprio voltar ao tema. Admito, lutando já contra o relógio do tempo, que o faça ainda. O assunto renasceu agora fruto de mais um livro de Andrew Morton, traduzido para português. Não creio que esteja resolvido. Há uma historiografia empenhada numa certa visão das coisas e arquivos oficiais encerrados "lock and key". Creio, por isso, que será interessante arquivar aqui o que então conclui na forma como então surgiu, sem emendas. Talvez surja um debate. Não acredito nisso. Normalmente faz-se de conta que nada foi escrito salvo o conveniente. 
Tudo de centrou em Cascais. Por aí comecei.


Falar das redes de espionagem estrangeira em Portugal durante a Segunda Grande Guerra e de actos isolados de espionagem que por aqui se praticaram, passa necessariamente por falar da linha de Cascais. 
Se bem que, aparentemente, não fosse local onde houvesse algo de específico a espiar era, pelo menos, lugar de confluência de muitos dos que actuavam no mundo das sombras e da clandestinidade.
Local de residência, de diversão, de refúgio e de passagem, lugar enfim de intriga, Cascais é, por isso, referência obrigatória em livros de memórias e em algumas das aventuras que se viveram no nosso país durante esse conturbado período.
O objectivo deste trabalho seria apenas o de rememorar, em estilo narrativo, alguns dos eventos que tiveram Cascais como local de ocorrência e a espionagem como móbil da acção.
Tratemos pois de Cascais.
Mas que linha de Cascais, importa perguntar? 
Cascais local costeiro, com excelente vista para o mar e um excelente ponto de observação para todo o movimento marítimo?
O termo da linha, o Casino no Estoril, os passeios, os hotéis de fino trato, por toda a costa, ponto de veraneio e de obrigatória diversão, onde se encontravam os «playboys» e as mulheres fatais, seres de vida dúplice que enganavam com a falta de discrição o que tinham de secreto? 
Cascais terra de refúgio e de passagem, local provisório para muitos que, por não terem meios de fortuna, ou a sorte de encontrarem uma vaga onde se albergarem, atafulhavam as pensões e casas de hóspedes, à espera de um bilhete para um navio destinado às Américas ou para qualquer outro local fora da Europa, ocupada pelas tropas nazis?
Cascais cenário de intriga internacional, palco de golpes de audácia dignos de romances, e alguns vieram mesmo a constituir guiões de novelas cinematográficas?
Ou, enfim, Cascais terra de exílio, onde reis em desgraça e ditadores apeados procuravam a amenidade do clima e uma ambiência de sossego propícias ao seu retiro dourado?
É de todos estes Cascais e de cada um que gostaríamos de poder falar, num passeio que começasse em Lisboa e se espraiasse ao longo de toda a extensa marginal até aos contrafortes de Sintra, ou que viandasse pela rota oposta, desde o aeroporto de Sintra, onde tantos estrangeiros conheciam pela primeira vez o oásis que então era Portugal, um país pobre mas em paz.
Não teremos tempo para tanto. Por isso, qual guia previsto para turistas apressados, importaria fazer um sightseeing apenas pelos pontos mais pitorescos. Decidimo-nos a tal.
Mas para que a excursão fosse produtiva e numa só viagem se fizessem todas as viagens, optámos por visitar um só local e reviver um único episódio. Vivido na Boca do Inferno

O presente texto irá tratar da passagem por Lisboa de Eduardo VIII, o Duque de Windsor, em Julho de 1940.
Três razões confluem para a escolha deste episódio.
Primeiro, porque se trata de uma ocorrência que começa e termina em Cascais, em que os eventos e o local se confundem quase por inteiro.
Segundo, por se tratar de uma história pouco estudada e escassamente conhecida pelos leitores portugueses.
Terceiro, porque nela se entrecruzam a intriga e a espionagem, as razões de Estado e os afectos íntimos, a luz e as sobras, a verdade e as conveniências.
Num outro ângulo, se há história que seja a história viva da «neutralidade colaborante», definida em 1939 por Oliveira Salazar, e das suas contradições, ela é uma delas.
Mas ela é sobretudo a história dos embaraços da nossa mais velha aliada, vivida em directo num momento em que o país era visitado por um outro Duque – o Duque de Kent – em representação de um outro rei – o legítimo Jorge VI – visita cujo significado político poderia ser ensombrado por este Duque de Windsor que já havia sido rei, como Eduardo VIII, mas que hoje era apenas uma hipótese possível para o III Reich de colocar no trono britânico um monarca germanófilo.
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Vamos pois falar da passagem por Lisboa do Duque de Windsor, o homem que abdicou de ser rei por causa dos tórridos amores com uma senhora americana, já divorciada, Mrs. Walis Warfield, ex-Mrs. Ernest Simpson, que o haviam afastado do trono britânico, onde reinara, de 20 de Janeiro a 10 de Dezembro de 1936, como Eduardo VIII.
Edward Albert Christian George Andrew Patrick David é conhecido sob diferentes títulos [Duque de Windsor (após a sua abdicação), Príncipe Edward de York, Príncipe Edward de Cornwall e York, Duque de Cornwall, Príncipe de Gales, e rei Eduardo VIII]. Nasceu em 23.06.894 em Richmond (Surrey) e faleceria em Paris em 28.05.972. 
O seu padrinho foi o czar Nicolau II.
Com a morte do Rei Eduardo V, em 20.01.36, seria proclamado seu sucessor. 
O seu relacionamento, a partir de 1930, com a senhora Walis levaria à sua abdicação em favor do irmão, o qual lhe sucederia como Jorge VI. Seria rei durante 325 dias.
O objecto da sua paixão foi um ser controverso, embora seguramente diabolizada para além dos limites, por via dos sérios interesses em presença.
Bessie Wallis Warfield, uma americana que acolheu o nome de Wallis Warfield Spencer (do seu matrimónio em 1916 com um piloto da marinha, Earl W. Spencer) e mais tarde de Wallis Warfield Simpson (devido ao seu ulterior casamento com o tenente Ernest A. Simpson, entre 1928 e 1937), duplamente divorciada, envolvera-se sentimentalmente com o Duque desde uma altura em que ainda estava ligada legalmente ao seu segundo casamento.
Tal ligação a uma estrangeira, não nobre e ainda por cima divorciada, geraria tais problemas que se tornou insuportável a continuação de Eduardo no trono que há tão pouco tempo ocupava. 
Num discurso radiofónico, anunciando ao mundo a sua abdicação, proferiu a frase que se tornaria lendária desde então, por marcar o paroxismo entre os seus deveres oficiais e os seus apelos sentimentais: «I have found it impossible to carry the heavy burden of responsibility and to discharge my duties as king as I wish to do, without the help and support of the woman I love».
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Eis o texto integral do discurso:
«At long last I am able to say a few words of my own. I have never wanted to withhold anything, but until now it has not been constitutionally possible for me to speak. A few hours ago I discharged my last duty as King and Emperor, and now that I have been succeeded by my brother, the Duke of York, my first words must be to declare my allegiance to him, this I do with all my heart. You all know the reasons which have impelled me to renounce the throne. But I want you to understand that in making up my mind I did not forget the country or the Empire, which, as Prince of Wales, and lately as King, I have for twenty-five years tried to serve. But you must believe me when I tell you that I have found it impossible to carry the heavy burden of responsibility and to discharge my duties as King as I would wish to do without the help and support of the woman I love. And I want you to know that the decision I have made has been mine and mine alone. This was a thing I had to judge entirely for myself. The other person most nearly concerned has tried up to the last to persuade me to take a different course. I have made this, the most serious decision of my life, only upon the single thought of what would, in the end, be best for all. This decision has been made less difficult to me by the sure knowledge that my brother, with his long training in the public affairs of this country and with his fine qualities, will be able to take my place forthwith without interruption or injury to the life and progress of the Empire. And he has one matchless blessing -, enjoyed by so many of you, and not bestowed on me – a happy home with his wife and children. During these hard days I have been comforted by Her Majesty my mother and by my family. The ministers of the crown and, in particular, Mr. Baldwin, the Prime Minister, have always treated me with full consideration. There has never been any constitutional difference between me and them, and between me and Parliament. Bred in the constitutional tradition by my father, I should never have allowed any such issue to arise. Ever since I was Prince of Wales, and later on when I occupied the throne, I have been treated with the greatest kindness by all classes of the people wherever I lived or journeyed throughout the Empire. For that I am very grateful. I now quit altogether public affairs and I lay down my burden. It may be some time before I return to my native land, but I shall always follow the fortunes of the British race and Empire with profound interest, and if at any time in the future I can be found of service to His Majesty in a private station, I shall not fail. And now, we all have a new King. I wish him and you, his people, happiness and prosperity with all my heart. God bless you all ! God save the King !»
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Eis o ser de quem vamos falar. Um rei apeado e um ser humano insatisfeito.
Sobre o seu caso já se escreveu imenso. E mais escreverá.
Uma obra de referência é o estudo de Michael Bloch, Operation Willi, the plot to kidnap the Duke of Windsor, Weindenfeld and Nicolson, 1984.
O tema reacendeu-se quando se tratou de divulgar os papéis de Walter Monckton, guardados na Bodleian Library, em Oxford.
Sobre o casal há já uma significativa literatura. 
As memórias do Duque, sob o título A King’s Story, foram editadas em 1947, pela Putnam & Sons, dando origem a um filme. Em 1960 editaria um outro livro sob o título Windsor Revisited. As memórias da Duquesa, The heart has its reasons, seriam publicadas em 1959. As suas cartas com o duque seriam também editadas por Michael Bloch em 1986, sob o título Wallis and Edward: letters, 1931-1937, the intimate correspondance of the Duke and Duchess of Windsor.
Entre as múltiplas biografias das suas pessoas pode citar-se a escrita por Jose Byran III e Charles J. V. Murphy, editada em 1979, com o título The Windsor Story.
Mas há muito mais: Greg King, The Uncommon Life of Wallis Simpson; Hugo Vickers, Fritz von der Schulenberg e Joseph Friedman, The Private World of the Duke and Duchess of Windsor; Michael Bloch, Duke of Windsor War, from Europe to Bahamas, 1939-1945, 1983.
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O personagem tem tudo de controverso, a começar pelas ideias.
Credita-se-lhe a filiação maçónica, tendo sido Grão Mestre da Grande Loja Unida de Inglaterra em 1936.
O seu irmão Jorge VI era também maçon, tendo sido iniciado em 1919, e em 1935 foi eleito Grão Mestre da Escócia.
Curiosamente o próprio Winston Churchill teria sido também iniciado na Loja Studholme n.º 1591, em Londres.
O seu germanofilismo persegue-o já no momento em que, vindo de Espanha, faz entrada em Lisboa em 3 de Julho de 1940, numa altura complexa para a vida política do país.
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O Duque chega a Portugal, via Espanha, vindo de França, onde se encontra colocado em funções militares.
Se bem que a Duquesa, no seu livro de memórias, atribua essa saída para Espanha a uma chamada de Winston Churchill, transmitida através do Embaixador em Madrid, Sir Samuel Hoare, que lhes fizera saber que dois hidroaviões os aguardavam em Lisboa, a verdade é que, para a História, a chegada a Lisboa foi apresentada como um acto de deserção do monarca.
Ainda hoje está em aberto o saber se Eduardo foi atraído a Lisboa, para que se dirigisse a Londres, ou se surgiu inopinadamente aqui, abandonando os seus deveres militares em França. 
A entrada do casal no país faz-se pela fronteira de Elvas, onde os acolheu uma calorosa recepção popular.
Neil Hogg, segundo secretário da Embaixada britânica em Lisboa, então com trinta anos de idade, e que havia ficado para trás, ocupado com problemas de intendência, que tão pesada comitiva arrastava consigo, encontrou os Duques «espantados, gratificados e de algum modo confusos» e comenta para o seu diário que «segundo recolhi, eles foram prontamente reconhecidos pelos habitantes entusiasticamente pró-britânicos, que conduziram os carros na direcção certa e os inundaram com caixas de frutos secos, pelos quais a região é famosa».
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Ligado por laços de sangue maternos à nobreza germânica, o Duque não escondia o seu pendor pelo III Reich, que já visitara em 11.10.37, no meio de grande polémica.
Edward era filho da princesa Mary of Teck [de seu nome completo Victoria Mary Augusta Louise Olga Pauline Claudine Agnes May], mais tarde a Rainha Maria, a qual era por seu turno filha de um nobre alemão Franz Paul Karl, Duke of Teck, da casa de Württemberg. 
As suas reflexões, por vezes descuidadas, não poupavam o Governo britânico e só podiam ser objectivamente úteis a Adolph Hitler. Entre elas a ideia de que a Guerra poderia terminar, não fosse a política britânica de agressão à Alemanha.
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A sua vinda a Portugal vinha envolta em mistério e a sua chegada cruza-se com a visita oficial do Duque de Kent, o qual se encontrava entre nós para participar na «comemoração dos centenários» e poderia ver o lustro da sua participação ensombrada pela feérica atenção que naturalmente a imprensa dedicava a tudo o que se relacionava com as andanças do casal Windsor.
A visita do Duque de Kent foi acolhida com a maior ênfase, pois vinha em representação do próprio monarca britânico, o rei Jorge VI, de seu nome Albert Frederick Arthur George, Duque de York, rei desde 11 de Dezembro de 1936.
Da sua comitiva faziam parte o Almirante Lord Chatfield, o Field-Marshal Lord Birdwood, o coronel Humprey Butler e Sir Stephen Gaselee, bibliotecário do Foreign Office e reputado académico sobre assuntos portugueses. 
O Governo de Lisboa instalou-o na Palácio de Belém, residência oficial do Chefe do Estado.
Na altura, as relações entre Portugal e a Grã-Bretanha estavam, no ângulo diplomático, no seu melhor. 
Churchill havia reconhecido publicamente que, no cenário da guerra, Portugal era a mais velha aliada dos britânicos. Salazar havia feito na Assembleia Nacional a célebre declaração de neutralidade «colaborante».
Do cerimonial da visita de Estado, e a marcar o bom relacionamento político entre ambas as nações, fez parte a condecoração de Oliveira Salazar com a G.C.M.C. [Knight Grand Cross of The Most Distinguished Order of St. Michael & St. George].
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Ora, ante o legítimo representante da Coroa britânica, que acabara de partir de regresso a Londres, a chegada do Duque de Windsor não poderia ser mais inoportuna, senão mesmo provocatória.
Na verdade, Jorge VI fora aclamado Rei devido à abdicação do Duque de Windsor, pelo que a presença de um lembrava necessariamente esse difícil episódio de sucessão dinástica.
Tradutor de tudo isso são as memórias do Embaixador inglês em Lisboa à data, Sir Walford Selby [K.C.M.G., C.B., C.V.O], editadas em 1953, sob o título Diplomatic Twilight, 1930-1940 por John Murray, pois que aí não se dedica ao episódio mais do que umas simples dez linhas, o mais sucintas que um diplomata acreditado poderia consentir-se. E, no entanto, Selby era amigo de Edward; só que não poderia furtar-se à embaraçosa situação.
Por causa da vontade do Presidente do Conselho, Doutor Oliveira Salazar, em manter estes inesperados visitantes no recato da discrição ou não, o certo é que, sendo supostos hospedarem-se no sumptuoso «Hotel Palace» no Estoril, Eduardo e York e a senhora Walis acabariam como hóspedes do banqueiro Ricardo Espírito Santo, que os acolheria na sua vivenda, ainda hoje existente, fronteira à Boca do Inferno em Cascais.
Mais tarde (entrevista ao jornal Rhodesia Herald, 08.08.57) Sir Walford Selby, o Embaixador britânico em Lisboa, contaria pormenores: «nas circunstâncias consultei o gerente do Palácio Hotel no Estoril no que respeita a instalações condignas. Foi ele quem decidiu que, nas condições de confusão que tinham acontecido o Duque ficaria melhor instalado numa “villa” do que num Hotel e assim se fizeram, os arranjos necessários».
Nesse aspecto até Eduardo Geada compreendeu que se tratava de uma «passagem por Lisboa».
Mas há uma outra faceta interessante do problema.
É que o Hotel Palácio no Estoril, sendo um local cosmopolita, era seguramente um lugar menos controlado pelos alemães do que a vivenda do banqueiro.

Ricardo Espírito Santo, jogava, como banqueiro que era, em ambos os lados do conflito, mas era tido por homem de confiança dos alemães. Colocar o Duque na sua casa não era só um acto que permitia a discrição desejada por Salazar; era seguramente confiá-lo a um ambiente para si mais natural.
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Retirado de circulação, o Duque seria entretido em convívio social por vários hóspedes. Por ali passaram, entre tantos, o Conde de Lancastre, o Visconde de Soveral, o Barão de Almeida Santos, Nuno Brito e Cunha, Tomás Pinto Basto, o Ministro das Finanças, Dr. Costa Leite (Lumbrales) e o dos Negócios Estrangeiros, Dr. Luís Teixeira de Sampaio.
Discretamente, faria umas quantas visitas a Lisboa, a maioria para tratar de assuntos de seu interesse imediato, mas sempre monitorado à vista pela PVDE, a Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado, na altura dirigida pelo Capitão Agostinho Lourenço.
Por mero protocolo, Eduardo visita o Chefe do Estado, General Óscar Fragoso Carmona e o Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar.
O interesse da Polícia pelo Duque espelha-se nos relatórios de observação que minutou a seu propósito e de que Salazar teve conhecimento directo.
Para as autoridades portuguesas o propósito político era claro: manter o Duque no conforto de um local retirado, mas o mais silencioso possível.
Uma entrevista que dera ao Diário de Notícias foi cortada pela Censura e o noticiário da sua chegada a Lisboa relegado para páginas menos visíveis.
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Ora é precisamente neste Cascais terra de clausura que o Duque, depois de confirmar a sua aceitação no regresso à mãe pátria, recebe, com alguma dorida indignação, através de uma carta, a notícia do destino que lhe está atribuído: o posto de governador das Bahamas, o qual, descontado o «panache», correspondia, na prática, a um exílio forçado para longe da atenção do mundo social.
As Bahamas tinham tido como governadores de 10 Janerio de 1932 a 1934 Sir Bede Edmund Hugh Clifford, em 933, Sir Bede Edmund Hugh Clifford, de 1934 a 1940 Charles Cecil Farquharson Dundas [em 1938, Sir Charles Cecil Farquharson Dundas.
De 18.08.40 a 28.07.45 1945 caberia o cargo ao Duque de Windsor, Suceder-lhe-ia Sir William Lindsay Murphy.
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A entrega da carta ocorreria na sequência de um equívoco ainda maior.
Na verdade, dias antes, o embaixador Walford Selby havia-lhe entregue uma outra missiva, assinada por Winston Churchill, pela qual o monarca era pura e simplesmente mandado regressar a casa.
Embaraçado quanto ao modo como haveria de efectuar tal comunicação, o tímido diplomata chama de parte o régio personagem e condu-lo, para maior discrição, para a Biblioteca da Embaixada e aí, a sós, transmite-lhe a entretanto decifrada mensagem. 
Nela, com rigorosa fria secura, Churchill intimava-o nestes termos: «Sua Alteza Real assumiu uma patente militar activa e a recusa em obedecer a ordens da autoridade militar competente criaria uma situação séria. Espero que não seja necessário o envio de tais ordens. Devo pois fortemente sugerir o acatamento imediato da vontade do Governo».
Era uma situação insustentável e um tom a rondar o inadmissível. Regressar a Londres, nestes termos, era pura e simplesmente o render-se a uma ameaça.
Regressado à sala, Edward, tentou, com compostura, escamotear a ambiência difícil que acabara de viver e que lhe turbava a serenidade e assim com pretensa fleuma, comentou para a mulher que «I thought it proper to set Walford straight», tentando explicar a razão da conversa a sós com o Embaixador do seu país. Era o quadro possível para a visível inferioridade que vivera no momento.
Mais tarde, nas suas memórias, a Duquesa relata a cena com um toque de «grandeur» e desta forma: «embora Winston Churchill não tivesse podido obter do Palácio de Buckingham as respostas às questões de David acerca do que iria ser feito quanto a David e a quanto a mim própria, Winston pressionava agora David para esquecer as suas condições e para regressar a casa nos hidroaviões. Mas David, muito embora admirasse Winston e estivesse ansioso por regressar a Inglaterra, não estava a fim de ser convencido. Informou o Embaixador de que não sairia de Lisboa até saber em que ficava. E por causa desta pendência solicitou a Sir Walford que mandasse os aviões regressar imediatamente». 
Só que a verdade era um pouco mais linear do que esta elíptica e insincera descrição. 
De facto, logo no dia seguinte, o Duque faz enviar a Londres um enviado seu para tentar obter do Governo a definição de um estatuto aceitável para si e para sua mulher. 
Atento, o informador da PVDE, que lhe monitorava todos os passos apercebe-se de que no dia 5, às 6 da manhã, o secretário major Philiper (sic) seguiu «de carro para Lisboa a fim de tomar o avião que o conduziu a Londres onde foi tratar de negócios do Duque, ficando de regressar dentro de uma semana».
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O convite para as Bahamas chegaria entretanto. 
A comunicação, irritantemente, chega a Lisboa horas depois de o Duque manifestar o seu desejo de regressar a Inglaterra.
De facto, a mensagem telegráfica, apesar de classificada como «most immediate», só chegaria pelas 2 e 10 da madrugada às mãos de David Eccles, a antena local do MEW (Ministry of Economic Warfare) e o responsável afinal pelas operações especiais em Lisboa.

Londres havia alterado a ordem de batalha. Tal como, em 1990, ironizou o biógrafo oficial do Duque, Philip Zielgler,no seu livro King Edward VIII, the official biography, esta segunda mensagem era «um ramo de oliveira num ambiente de alta efervescência».
A carta de convite/intimação vinha firmada por Winston Churchill, o Primeiro Ministro britânico. Os seus termos deixavam pouca margem para dúvida.
Eis o texto, em tradução livre: «Estou autorizado pelo Rei e pelo Gabinete a oferecer-lhe a nomeação como governador e comandante em chefe nas Bahamas. Se aceitar, será possível transportá-lo a si e à Duquesa, directamente de Lisboa, tudo dependendo da actual situação militar. Por favor faça-me saber sem demora se esta proposta é satisfatória para Sua Alteza Real. Pessoalmente, estou certo de que é a melhor abertura nesta difícil situação na qual nos encontramos. De qualquer ângulo, fiz o melhor a) Winston Churchill».
O que é certo é que esta cena de ordens e contra-ordens, em que num dia o Duque é suposto regressar a Londres, noutro é suposto seguir rumo às Bahamas, indicia não desorientação da Coroa britânica e do seu Governo, mas seguramente um golpe de rins estudado por razões que até agora foram mantidas secretas.
Expedida em 4 de Julho, e timbrada do Foreign Office, tal missiva tinha este passo elucidativo «Personally I feel sure it is the best open in the grievious situation in wich we all stand». Para bom entendedor bastava. 
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É então que nasce o enredo crucial da história.
Confrontado com a humilhante mensagem, Sua Alteza pergunta a David Eccles, que lha entregara em mão, que conselho lhe daria em tal matéria, mas no fundo sente que não tem já outra via de escape.
Educado em Oxford, David Eccles desempenhou a sua missão de representante do Ministry of Economic Warfare [Ministério da Economia de Guerra] no nosso país em três períodos distintos. Primeiro, entre Abril e Novembro de 1940, depois entre Junho e Novembro de 1941 e finalmente da Janeiro a Agosto de 1942. 
Em 22.03.41, a caminho dos EUA - onde apresentaria a Roosevelt um plano para o abastecimento e permissão de relações comerciais com a França livre, o Marrocos francês e a Espanha - entrevista-se com Salazar (AOS/CO/NE-7A, pt. 8, fls, 210-214). 
Passada a Guerra, vem a assumir responsabilidades governativas na Grã-Bretanha, sendo Ministro das Obras Públicas. Em 1961, desempenhando o cargo de Ministro da Educação, vem a Lisboa e é recebido na Rua da Imprensa à Estrela, a residência oficial. Diz ter encontrado um Salazar entristecido, que lhe lamenta ter concedido à polícia política poderes para fazer coisas que todos lamentavam. 
Reformado em 1973, desempenhou então o cargo de Primeiro Presidente da Biblioteca Britânica.
Em 1983 publica na The Bodley Head a sua correspondência com a mulher, travada entre 1939 e 1942, sob o título By Safe Hand.
A sua presença em Portugal, na altura em que aqui chegou o Duque de Windsor, centrava-se na missão de gerir o bloqueio inglês à Alemanha, evitando que esta encontre no mercado os produtos necessários ao esforço de guerra que leva adiante.
Rendido aos encantos do país, Eccles nutre uma profunda admiração afectuosa pelo Presidente do Conselho de Ministros, como se lê numa sua carta escrita para a mulher, Silby: «Salazar é realmente uma maravilha, tão calmo, tão eficiente, tão romântico e, não posso deixar de acrescentar, tão extraordinariamente interessado em mim. Mas que não haja engano. Ele vive em reclusão com uma governanta e uma menina adoptada, que julgo ter sete anos. Ninguém detectou jamais um impulso sexual na sua pessoa. Por isso, a sua afeição por mim pode ser considerada pura».
Só que não se tratava apenas de uma mera eleição pessoal. Convencido da bondade da política do chefe do Governo, a quem não hesita chamar de «o grande homem», Eccles não tem dúvidas em informar para Inglaterra que a manutenção de Salazar «é do interesse do governo de Sua Majestade» e que tudo deveria ser feito para o consolidar na chefia de Portugal.
Em 22 de Junho relata mesmo que a Inglaterra apoiava Salazar na sua luta contra os elementos da «quinta coluna» que minavam a sua permanência no posto.
Já quanto aos Windsor, as suas confidências conjugais são mais cruéis: no livro não se exime a manifestar quanto os detesta e da Duquesa diz mesmo, numa carta escrita em 08.07.40, de modo sardónico, que é «a battered warhorse in a halo hat». Mulherengo, acaba porém seduzido pelos encantos da mundana senhora Simpson e pelo seu estilo incrível e perigoso. Por obra e graça dos jantares com os Windsors as resistências da antipatia vão decaindo e os preconceitos contra essa mulher que ele a princípio tinha por vulgar nos gestos esbatem-se também.
Por ter partido de férias entre 25 de Julho e 13 de Agosto, Eccles está, porém, fora do país durante todo o tempo em que decorre a trama em torno do Duque de Windsor. Por isso, não tem qualquer fundamento a afirmação de Anthony Cave Brown na sua biografia de «C» [Sir Stewart Menzies], segundo a qual o casal Windsor teria sido colocado «sob a vigilância pessoal de David Eccles».
E, por isso, no próprio dia, depois de almoço senta-se à máquina de escrever e conforme sabe, redige e subscreve uma declaração de aceitação.
Na sua carta para a mulher, escrita no próprio dia 4, Eccles é lapidar quanto à atitude do Duque e quanto à sua opinião sobre Walis: «almocei com os Windsors hoje. Eu não daria dez shillings por Walis, ela é uma pobre criatura. Ele adora-a e está de óptima saúde. Ele aceitou o lugar [de Governador das Bahamas] sob grande pressão de HE [Sua Excelência, o Embaixador] e do teu afeiçoado DE [David Eccles], como tu verás nos jornais. Uma solução muito astuta. Pelo menos significa algum reconhecimento para ela. Ele é muito quinta coluna, mas isto é só para ti. Jantarei com eles no sábado e darei mais detalhes depois disso».
A referência a «uma solução muito astuta», na sua singeleza, põe a descoberto a trama que se terá passado.
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Decidida a partida, a Duquesa encarrega a criada francesa Marguerite Moulichon de se deslocar a França para recuperar o guarda-roupa indispensável à mudança para tais longínquas paragens.
E o Duque inicia a peregrinação pelas Companhias de Navegação, para obter acomodação condigna. A ideia de visitar a América preenche-lhe a imaginação e causa calafrios em Londres e em Washington.
Mas o factor tempo começa a trabalhar contra si. E os factores de decisão pronta começam a amolecer.
Sabida a sua hesitação, e sendo ele suposto a partir de Lisboa regressar a Inglaterra, movem-se de ambos dos lados forças impressionantes respectivamente para o convencer a aceitar e para o demover a partir.
De Berlim as operações são comandadas a alto nível e passam nomeadamente por convencê-lo a partir para Espanha. Daqui, segundo uma tese teimosa que tem persistido em afirmar-se, seria raptado e usado, a partir de então, como um instrumento de propaganda do III Reich.
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O problema parece-nos ter hoje uma configuração clara: que o poder em Berlim estava interessado em criar condições para que o Duque pudesse escapar ao domínio britânico é seguro; que ele estivesse disponível para o efeito, pois que psicologicamente fragilizado com tudo o que tinham feito contra ele por causa da sua ligação sentimental, é plausível; agora, que do plano alemão fizesse a priori parte a ideia de um rapto, isso é uma tese que, convindo claramente à defesa do prestígio da casa de Windsor, só tem consistência se aceitarmos – quod erat demonstrandum – que Eduardo só à força aceitaria sair para uma zona de controlo alemão.
E se não, vejamos o ilogismo de aceitar que o plano implicasse levá-lo à força para Espanha, pois que havia sido desse país que ele precisamente viera com destino a Portugal.
Num esquema de golpes e contra-golpes, a vitória acaba por sorrir aos britânicos, que, mobilizando para o efeito uma acção coordenada, vêm com alívio Sua Alteza embarcar em 1 de Agosto de 1940 no navio Excalibur rumo à sua gaiola dourada.
E que se passou em Cascais, nesse prélio de bastidores pelos quais as forças antagonistas jogavam os meios já sofisticados da guerra psicológica, tentando por um lado convencer o Duque dos riscos de uma viagem marítima num oceano infestado de submarinos nazis e num barco carregado de judeus, e por outro, aliciá-lo a sair para um posto que só poderia ser tomado com um acto abnegado ao serviço de Sua Majestade o Rei Jorge VI ?
Os factores em presença corriam favoráveis a Berlim, evidenciando que o Duque estava pronto para ser cultivado…
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Rodeado de cortesias oficiais, acolhido pelo próprio Embaixador britânico em Lisboa, Sir Walford Selby, o tratamento dado à presença do Duque em Lisboa mostrava que a sua pessoa estava em desgraça pública junto da Corte e da política inglesas. 
Informado de todos estes factos, Joachim Ribbentrop, Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, decide-se a actuar. O assunto havia sido tratado com o próprio Führer, Adolph Hitler. A oportunidade era única.
Walter Schellenberg, no seu livro de memórias, descreve a conversa que teve com o Ministro dos Negócios Estrangeiros Ribbentrop – e que por dever de fidelidade confiara a Heydrich – a propósito do caso.
Nessa entrevista, o Ministro menciona-lhe que desde 1936 Hitler havia encarado as ideias do Duque em prol da causa do III Reich como a razão subjacente à sua abdicação e que podiam ser usadas a favor do seu regime.
Eduardo, precisamente por causa da sua ideologia, estaria de aí diante como que prisioneiro dos serviços secretos britânicos e ansioso por se libertar, assim lhe surgisse a oportunidade.
Ora a oportunidade era precisamente aquilo que Schellenberg deveria criar, agora que o Duque estava em Lisboa, ao dispor.
Não se tratava necessariamente de um rapto, antes, no limiar cru das palavras, de um «suborno» ou de processo de aliciamento.
Na verdade, segundo a descrição de Schellenberg, Hitler havia autorizado o depósito, numa conta na Suiça, da soma de cinquenta milhões de francos suíços em favor do Duque, desde que ele praticasse um gesto que pudesse significar a sua dissociação «com as manobras da Família Real Britânica».
A escolha da Suiça não seria inocente. É que, ainda segundo o Reichsminister Ribbentrop, tratava-se de um país que, embora neutral, «não estava fora da área de influência militar e política do III Reich».
Haveria que tomar a dianteira, mas com cuidado.
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Na verdade, Berlim não podia confiar esta missão delicada ao seu Embaixador em Lisboa, Oswald Barão de Hoyningen-Huene. 
Primeiro, porque se tratava de alguém cujas simpatias nazis eram duvidosas.
Depois, porque a própria personalidade deste diplomata tradicional, então com cinquenta e seis anos de idade, era tudo menos apropriada a ter parte neste género de iniciativas de tipo clandestino.
O Barão Oswald von Hoyningen-Huene, aristocrata investido em funções diplomáticas, permaneceu como Embaixador alemão em Lisboa desde 1934 a 1944, ou seja, antes do início da Segunda Guerra até praticamente à parte final do mesmo.
Germânico, conservador, não nazi, Hoyningen-Huene, fez o melhor que podia pela Nova Ordem. Viveu dez anos em Lisboa, seis já durante a Guerra. Terminaria preso, mas deixaria atrás de si uma lenda.
Quando em Novembro de 1944 se tornou público, através da imprensa, que o Ministro da Legação alemã em Lisboa, o Barão Hoyningen-Huene, ia deixar o seu posto, o então Embaixador britânico Sir Ronald Campbell sentiu que tinha motivo para uma profunda preocupação.
Escrevendo em 30 de Novembro para Anthony Eden, não hesitou em dizer que esse evento «marcava o fim de uma época».
Hoyningen-Huene apresentou as suas credenciais em Lisboa em 24 de Outubro de 1934, sucedendo ao Dr. Freytag, cuja idade já o incapacitava de ser aquilo que a nova ordem teutónica esperava do seu pessoal diplomático.
O Presidente Hindemburgo falecera umas semanas antes e Hitler autoproclamara-se o Führer do III Reich.
Ao chegar, parecia haver algo de desconfortável na biografia do novo Ministro da Legação e na sua natureza pessoal face ao estilo revolucionário inaugurado pelo novo Chanceler nazi.
Barão, o novo Ministro, nascera na Suiça, filho de mãe inglesa. A sua família, cujos títulos de nobreza remontavam ao século dezasseis, tinha já uma respeitável tradição no serviço imperial russo.
Jurista, com formação académica na Alemanha e na Suiça, fizera a primeira parte da sua carreira no sistema judicial alemão e só entrara para o departamento jurídico do Ministério dos Negócios Estrangeiros depois da primeira Grande Guerra.
Fora, aliás, aí que nascera a sua boa estrela.
Inteligente e superiormente preparado, rapidamente se tornara num dos consultores políticos principais do Presidente Hindemburgo, tendo assistido, desse lugar de eleição, à ascensão e apogeu de Adolph Hitler e do nazismo.
O diplomata ganha terreno e move-se certeiro em Lisboa.
Habilitado com o seu cosmopolitismo e as suas boas maneiras, rapidamente conseguiu expandir a sua rede de relações sociais, abrangendo não apenas os círculos monárquicos, mas também aqueles que mais directamente o relacionavam com o salazarismo. Apenas o Cardeal Patriarca, Manuel Cerejeira, o olhava com alguma desconfiança. 
O estilo tranquilo, os olhos semi-cerrados semeavam, sossego e consenso em sua volta e desguarneciam as defesas dos seus pares.
Huene tinha então cinquenta e quatro anos de idade.
Então, já o cenário internacional se havia complicado, com a assinatura do pacto germânico-soviético e com a relutância dos sectores conservadores da sociedade portuguesa em aceitarem o companheirismo forçado com da União Soviética de Estaline, a que o acordo Molotov/Ribbentrop os obrigava.
Temendo o pior, o diplomata toma a iniciativa de se despedir de alguns dos amigos que aqui fizera, imaginando que a hora da partida está já para breve. Ao seu estilo letárgico e à sua formação jurídica não quadravam os novos tempos que lhe eram dados viver.
Só que, nessa altura, já Hoyningen-Huene tinha cumprido o essencial da sua missão e ela era agora globalmente útil ao regime militar que se punha em marcha em busca do «Lebensraum» e condição da sua sobrevivência no lugar em Lisboa.
E isso passara pela germanização ideológica das elites portuguesas, pela vulgarização da língua de Goethe, pelo trabalho de aculturação da juventude conservadora, enfim pela capacidade de influência das estruturas dominantes do regime.
Haviam sido, de facto, alemães alguns dos instrutores da Mocidade Portuguesa, da Legião e da PVDE e era de inspiração germanista a Direcção do «Diário da Manhã», o órgão oficial da União Nacional, o partido único que o regime consentia.
Politicamente sagaz, o Barão sabe explorar em seu favor o facto de os opositores a Salazar serem, por definição, anglófilos, e tentara assim evidenciar-se aos olhos do regime como o natural aliado externo para o combate que o Estado Novo travava contra a sua oposição interna.
No plano internacional, a História sua antecedente joga em seu benefício, porque, durante a Guerra Civil espanhola, Portugal e os seus «Viriatos» haviam estado ao lado dos alemães de Hitler com os nacionalistas de Francisco Franco, contra os «rojos» apoiados pela URSS.
Lavrado o campo, havia que desenvolver a doutrina, fazendo-se dela arauto, para além das suas mais íntimas convicções.
Fluente em português, que aprendera para o efeito, seis meses após a sua chegada a Portugal, já se permitia dirigir-se nessa língua em Coimbra a um restrito auditório, que o escutou embevecido, no Instituto Alemão, dirigido por Providência Costa.
Mas foi em 3 de Março de 1939, na respeitável Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, que se proporcionaria a oportunidade de, alargando o campo, teorizar sobre «A Unidade Alemã, evolução e realização duma ideia», na honrosa presença do Reitor, do Director da Faculdade de Letras, Eugénio de Castro, e de um significativo corpo de Doutores.
O Instituto Alemão editou o texto, no volume IX do seu Boletim. A Coimbra imprimiu uma separata.
O discurso, fino de erudição e inteligência, desmente em larga medida a ideia de um sensível distanciamento entre o orador e o pensamento de Hitler, a quem ele tributa ali as mais dedicadas palavras de enobrecimento. Emocionado, a findar a sua alocução, afirmou von Huene na solene Sala dos Capelos, «vós, Portugueses, melhor do que muitos outros povos, havereis de compreender os sentimentos de profunda admiração e comoção com que eu, simples, mas sincero e ardente patriota alemão, neste momento, depois desta visão retrospectiva, me inclino perante o génio do meu povo e do supremo Chefe da Nação: perante o génio da Alemanha e de Adolf Hitler».
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Ante a chegada dos Windsor, Huene tem um problema difícil para gerir.
Inteligente e bem informado, percebe qual a importância estratégica que para a causa alemã significa Sua Alteza, o Duque.
Para ele, a personalidade «do homem que podia ser rei» dizia-lhe tanto que se permitira intitulá-lo, em conversa com o Secretário Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Teixeira de Sampaio, como «o nosso primeiro Presidente da República da Grã Bretanha».
Só que, sabendo que de Berlim chegaria alguém especialmente mandatado para tratar do assunto, no caso Walter Schellenberg, retira-se prudente, não se envolvendo directamente na operação.
Quatro anos passados sobre tudo isto, em finais de 1944, von Huene seria finalmente chamado a Berlim, abandonando o posto de Lisboa. Esperá-lo-ia a prisão. 
Sai efectivamente de Lisboa sem ter apresentado despedidas, tendo assegurado a Salazar que voltaria dentro de «duas semanas».
Em 29.10.44 a Legação alemã em Lisboa comunica que «se tenciona chamar o Ministro da Alemanha, Barão Hoyningen-Huene, do seu posto actual para empregá-lo noutro lugar e designar como seu sucessor o enviado extraordinário e Ministro Plenipotenciário em Madrid, Ministro de Primeira classe senhor Sigismund Freiherr von Briba (MNE/AHD/GSG,M6-pasta 8).
Nascido em 03.06.894, entrara na vida diplomática em 1922. Entre 1923 e 1943 ocupara postos em Rio de Janeiro, Praga e Berna. Desde Março de 1943 estava colocado em Madrid.
A Embaixada britânica em Lisboa comunica para Londres nos termos mais violentos quanto a tal pessoa (FO371,39596), apelidando-o mesmo de «gangster».
As informações que chegam a Lisboa não são, entretanto, definitivas, mas aflora a ideia de que o novo Ministro virá ao serviço da radicalização das relações entre a Alemanha e Portugal e para preparar movimentos de «resistência».
Tovar, de Berlim informa em telegrama de 08.11.44 que antes de ocupar o seu lugar em Madrid von Bibra «desempenhou mesmas funções em Berne acumulando-as com as de chefe do partido nazi na Suiça. Tem fama funcionário ponderado e de trato agradável».
Perante a falta de empenhamento português na concessão do solicitado «agrément», a Legação da Alemanha, em 13.01.45, indica para tal efeito o primeiro conselheiro da Embaixada alemã em Roma Gustavo von Halem.
Nascido em 04.11.899, entrara na vida diplomática em 1926, tendo ocupado postos em Londres, e em Praga e Milão. Desde Outubro de 1944 encontrava-se como Cônsul Geral de primeira classe com o título de Ministro junto da Embaixada da Alemanha em Itália.
Em 1947 o Barão faz um pedido de entrada em Portugal, o qual vem formulado pela Legação de Portugal em Berna (MNE/AHD/2º piso, armário 49, maço 99, processo nº 32,3123).
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Haveria, pois, que montar um circuito paralelo de modo a criar uma força de pressão psicológica em torno de Eduardo.
Para isso, os alemães socorrem-se dos germanófilos que tinham em Espanha.
A posição oficial espanhola durante a segunda guerra não era, como a portuguesa, a de «neutralidade», mas sim a de «não beligerância».
Sob a direcção de Francisco Franco Bahamonde, o regime espanhol manteve um equilíbrio em que a balança pesava muito mais para o lado alemão, devido ao peso específico dos falangistas e nomeadamente de Ramón Serrano Suñer, cunhado do «Caudillo» e seu ministro do Interior.
Sobre a sua personalidade, será interessante ler-se uma biografia escrita por Ignacio Merino, com prefácio de Paul Preston, intitulada Serrano Suñer, historia de una conducta, Editorial Planeta, 1996.
Entre 09.08.39 e 20.07.45, o Governo espanhol era formado, na área dos Negócios Estrangeiros, por Juan Beigbeder Atienza (até 16.10.40), Ramón Serrano Suñer (até 03.09.42), Francisco Gómez-Jornada Sousa, Conde de Jordana (até 03.08.44) e José Félix de Lequerica y Erquiza. 
Ramón Serrano Suñer era advogado de profissão, tendo desempenhado o cargo de advogado do Estado em Saragoça. Casa com Ramona Pólo, irmã da mulher de Franco.
Conservador e germanófilo, foi deputado pela União Direitas e posteriormente da CEDA até à sublevação militar. Fracassada esta, é preso.
Conseguida a custo a sua libertação, retira-se de Espanha, onde regressa em 20.02.37.
Em Janeiro de 1938 é ministro do Interior e em Agosto de 1939, Presidente da Junta Política.
A sua aproximação aos alemães faz com que, em Setembro de 1940, visite a Alemanha, em representação do «Generalíssimo». Havia sido nomeado recentemente como titular da pasta dos Assuntos Exteriores.
Ignorando o que se trama, o Duque dá-se progressivamente conta de que as andanças do seu caso não são compatíveis com uma saída rápida do país. 
Por isso, a 7, domingo, quando os seus anfitriões se retiram, no fim de um pesado dia de convívio com os seus ilustres hóspedes, as ideias estão assentes: a permanência vai ser mais longa do que em princípio se imaginara e a vivenda seria, até mais ver, o local de expectativa e de enfabulação. E, à meia-noite, ao acenar as despedidas a Ricardo e a sua esposa, Mary Coehn, Eduardo já sabe que o dia seguinte trará visitas importantes.
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De facto, pelas dezoito horas e cinquenta minutos de segunda feira, dia 8, aterra no aeroporto da Granja, em Sintra, o avião da carreira Madrid/Lisboa, transportando um amigo íntimo do casal ducal, D. Javier Bermejillo, conhecido como «el Tigre», e a quem a Duquesa trata afectuosamente como «tiger dear».
Enviado especial, este diplomata ficaria na vivenda durante cinco dias. Vinha a mando do Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, o coronel Juan Beigbeder y Atienza, mas também como «emissário confidencial», com instruções da parte do Embaixador alemão em Madrid, Eberhard von Stohrer, transmitidas através do elemento mais germanófilo do governo do «Generalíssino», o cunhado de Francisco Franco Bahamonde, Ramón Serrano Suñer.
No seu livro, publicado em 2000, intitulado Hidden Agenda, que na edição francesa se chama Le roi qui a trahi, Martin Allen cita um telegrama de von Stohrer para Ribbentrop [DGFP, telegrama n.º 2298, ref.ª B15/002545série D, volume X], no qual informa que o ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha Beigbeder y Atienza lhe havia dito que «o Duque de Windsor pediu-me que enviasse a Lisboa um homem de toda a confiança a quem pudesse entregar uma mensagem para o ministro dos Negócios Estrangeiros [Ribbentrop].
A 9 e a 10, o enviado especial desenvolve os seus contactos principais. A ambiência é de tal modo promíscua que os alemães conseguem monitorar com pormenor os acontecimentos e manter a Chancelaria do Reich informada sobre o decurso da situação.
Sob o olhar míope da PVDE, saem de Cascais pelas 16 horas, num mesmo automóvel, o Duque, o seu ajudante de campo - o capitão George Wood - e «el Tigre». Os primeiros rumam à Embaixada britânica, o espanhol à Casa de Espanha. 
Voltam a sair no dia seguinte, pelas onze da manhã, os ingleses para o mesmo destino da véspera, D. Javier para a Embaixada alemã, reencontrando-se todos pelas 13 horas na Embaixada espanhola, a caminho do nº 7 da Rua 1º de Dezembro, para então aí comprarem charutos havanos.
Em ambos os dias teriam como companhia para o jantar o Barão de Rotschild e a Esposa.
A 11, repete-se a cena, mas agora ainda com maior promiscuidade, o capitão Wood e D. Javier a deslocarem-se à Embaixada britânica para buscar documentos que vinham num envelope lacrado com os dizeres «Gabinete do Rei» e que, segundo a PVDE diz ter conseguido espreitar, «dizia respeito às condições do armistício imposto pela Alemanha à França e um outro inseria as condições impostas pela esquadra britânica à francesa».
Assim dotado de informações seguras, von Hoyningen-Huene, o Embaixador alemão em Lisboa, telegrafa nesse dia 11 para Berlim a relatar que, segundo «espanhóis que rodeiam o Duque informaram», este «pretende adiar a sua ida para as ilhas Bahamas o mais possível pelo menos até ao princípio de Agosto, de modo a que os acontecimentos se lhe tornem favoráveis».
E acrescenta o aristocrático diplomata alemão esta frase enxovalhante para o régio personagem: «o Duque acredita definitivamente que a continuação de intensos bombardeamentos, tornará a Inglaterra pronta para a paz».
A 12, uma vez mais, o périplo é comprometedor: D. Javier faz-se conduzir pelo «chauffeur» de serviço, primeiro à Embaixada Alemã na Rua do Pau de Bandeira e de seguida à espanhola, demorando-se até à noite.
E noite particularmente activa haveria de ser essa. O Duque, o Capitão Wood e «o Tigre» empregues na redacção de correspondência e em constante contacto telefónico com as Embaixadas britânica e espanhola.
Todo o jogo está combinado de origem: o Duque dita para Londres as suas condições que, parecendo insignificantes, vêm a mostrar-se, afinal, uma forma subtil de ir entretendo o tempo e de provocar Londres a dizer «não».
Ao sair para Sintra no dia 13, para tomar o avião das seis e meia com destino a Madrid, D. Javier, traz, de facto, notícias do estado de espírito do Duque e da sua preocupação em poder recuperar os seus haveres em França, mas traz sobretudo algo que o Embaixador alemão em Madrid se encarrega de comunicar em mensagem cifrada urgente para Berlim: Nicólas Franco Bahamonde, irmão do «Caudillo», e então Embaixador em Lisboa, havia recebido instruções expressas do Ministério dos Negócios Estrangeiros para advertir o Duque contra o que poderia significar a aceitação do lugar nas Bahamas. 
Mas já ciente de que a operação no momento consistia em segurar o Duque em Lisboa, Stohrer sugere que se aceite o pedido daquele para que a sua criada francesa, Margerite, fosse autorizada a viajar a Paris, via Madrid, acolitada por um camião, com o propósito de recuperar alguma bagagem, sobretudo a de Madame. 
É que esse tempo de viagem confere aos alemães a preciosa dilação de que precisam para convencerem em definitivo Sua Alteza Real a não aceitar o cargo para que Londres o convida e confere ao Duque o tempo necessário para se deixar convencer. E, de facto, os dias começam a correr sonolentos.
A 14 e a 15, não saem de Cascais.
A 16 e a 18, há jantares, primeiro na Embaixada britânica, depois na americana. 
Só que o Duque, jogando inteligentemente nos dois tabuleiros, evidencia esforços no sentido de que a viagem para as Bahamas se efectue através de Nova York. 
A 9, já escrevera ao major Gray Philips manifestando a importância dessa deslocação americana, para que a Duquesa pudesse ser vista por médicos naquela que era sua terra natal. 
E a 12, o príncipe arriscara mesmo uma carta ao Primeiro Ministro, Winston Churchill sugerindo que fossem levantados os sabidos obstáculos à sua viagem através dos EUA, dado que já fizera, entretanto, contactos com os agentes europeus da companhia de navegação «United States and Export Lines».
Por isso, quando no dia 18 janta na Legação americana e no dia seguinte para ali se dirige carregando uma pasta de trabalho, já tinha reservas provisórias para uma viagem para o dia 1 de Agosto. 
Só que um telegrama do major Philips, recebido na véspera, traz notícias desanimadoras: Londres não aceita a projectada deslocação através da América e Roosevelt, agora em plena corrida eleitoral, também não veria com bons olhos a presença deste mediático e controverso monarca, a lançar confusão no ambiente já conturbado pela ambiência de guerra em que o isolacionismo americano era cada vez mais comprometedor.
Oficialmente, o Governo de Sua Majestade o Rei Jorge VI dissimula a sua recusa escudando-se em razões técnicas.
O ambiente pesa. 
Os dias que seguem são um vaivém de mensagens entre Londres e Lisboa a propósito da pretendida deslocação americana e do pedido de que seja liberto do serviço militar alguém para o escoltar nessa viagem. 
Assoberbado pelos encargos da guerra, Churchill exaspera-se com o tempo que perde nestas minudências e a 24 telegrafa em linguagem seca: está fora de questão a estadia em Nova York, como moeda de troca; fique o Duque com Flechter, o desejado ajudante, a quem, a título excepcional, o «War Office» concede licença para o efeito. Esta decisão, remata o Primeiro Ministro, «deve ser aceite».
Parece ser a estocada final. 
A 20, escrevendo a um amigo, George Allen, o Duque já confidenciara o que parecia ser o seu pensamento íntimo: «não tenho alternativa senão ir».
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Só que os espanhóis, comanditários dos alemães, não desarmam.
Avança então para Lisboa, Don Miguel Primo de Rivera y Saenz de Heredia, o terceiro Marquês de Estella, irmão do lendário José António, o criador em 1933 da «Falange». 
Numerosas referências biográficas a Don Miguel são-lhe desfavoráveis, acentuando a sua frivolidade libertina. A inteligência não era a qualidade mais evidente na sua pessoa, escreveu um historiador coevo.
Teria sido o Embaixador alemão em Madrid, Eberhard von Stohrer, quem teria sugerido ao Ministro do Interior de Franco, Ramón Suñer Serrano, cunhado do Generalíssimo Francisco Franco, que o controverso Rivera viesse a Portugal para tal missão.
Miguel era ele próprio chefe de distrito da Falange, em Madrid.
Na aprovação reticente da missão estivera Ramón Serrano Suñer, cunhado de Francisco Franco, então no desempenho do cargo de Ministro do Interior.
Don Miguel chegara a Lisboa a 14, acompanhado pela mulher doente, e fica em Portugal até ao dia 22.
Dá-se, então, o insólito. 
Atenta a todos os detalhes, a PVDE não consegue localizar esta curiosa figura, cuja visibilidade boémia era mais do que conhecida. 
E pior, a polícia do capitão Agostinho Lourenço da Conceição Pereira deixa-se confundir pelo «alias» do personagem e individualiza-o no relatório de vigilância como «um doutor espanhol de apelido Verda», o qual, segundo a polícia, «era conhecido pelos criados como batoteiro».
Uma delícia: aos da polícia escapa-lhes também o jantar entre o Duque de Windsor e D. Miguel a 17, pois as «sombras» da PVDE consignam que nesse dia Eduardo jantara «com o Embaixador inglês».
Já com a presença feérica do recém chegado visitante, o ambiente na mansão da Boca do Inferno ajusta-se.
Ao regressar a Madrid, este segundo «emissário confidencial» traz notícias eufóricas, mas que a História ainda hoje põe em dúvida pelo seu exagero, quanto ao estado de espírito do Duque, que o Embaixador Stohrer telegrafa de imediato para Berlim. 
Mas é a 24, quando um novo telegrama da Legação nazi em Madrid para von Ribbentrop é expedido, que o quadro se delineia com maior nitidez. 
Stohrer informa então que Don Nicolás, Embaixador em Lisboa, havia feito uma «démarche» junto do monarca e que o Duque e a Duquesa estavam prontos a regressar para Espanha.
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Falada a missão de Bermejillo, tudo se concentra agora em torno dos esforços de Primo de Rivera.
Don Miguel chegara a Lisboa a 14, acompanhado pela mulher doente e fica em Portugal até ao dia 22.
Já com a presença feérica do recém chegado visitante, o ambiente na mansão da Boca do Inferno ajusta-se.
A 20 já há sessão nocturna de jogo até às quatro da manhã, na qual estão presentes «duas senhoras em trajo de soirée», vindas para o efeito do Casino do Estoril.
Ao regressar a Madrid, este segundo «emissário confidencial» traz notícias eufóricas, mas que a História ainda hoje põe em dúvida pelo seu exagero, quanto ao estado de espírito do Duque, que o Embaixador Stohrer telegrafa de imediato para Berlim. 
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Mas é a 24, quando um novo telegrama expedido pela Legação nazi em Madrid para von Ribbentrop, que o quadro se delineia com maior nitidez. 
Stohrer informa então que Don Nicolás, Embaixador em Lisboa, havia feito uma «démarche» junto do monarca e que o Duque e a Duquesa estavam prontos a regressar para Espanha.
Só que, simploriamente loquaz o corpulento Don Nicolás abre-se com David Eccles, o homem forte da Embaixada britânica em Portugal, e faz uma grave inconfidência, pondo os ingleses a par do que estava a ser perpetrado em relação aos Windsor.
Tentando ainda ganhar tempo, o Duque telegrafa para Churchill dando-lhe conta de que «em princípio» aceitava os preparativos que estavam a ser feitos para a sua viagem, incluindo a ausência de escala no território americano.
Em Londres ressoam já, porém, campainhas de alarme.
As notícias chegadas de Eccles, que saíra de Lisboa a 25, a fórmula elíptica do «em princípio» e as informações que os «code breakers» de Bletchley Park tinham logrado obter da intercepção da cifra alemã davam o quadro global: Sua Alteza real estava a fazer jogo duplo.
Um novo agente é feito, por isso, avançar: Angél Alcazar de Velasco, um jornalista espanhol desde 1935 ao serviço da Abwehr.
Em 2 de Outubro de 1983 o advogado britânico Michael Bloch entrevista-o e dele obtém, embora já diluídas pelo tempo revelações sensacionais quanto a uma intervenção até então desconhecida.
Velasco, que à data se considerava um dos poucos falangistas genuínos, foi contactado em Madrid no «Instituto de Estudos Políticos» precisamente por Don Miguel Primo de Rivera e é mandatado para viajar até Lisboa, com uma carta para o Duque e com o propósito de o convencer a regressar a Espanha, onde alegadamente estaria então a são e salvo.
Jornalista e falangista radical, com amplos contactos com os serviços de informações alemães, faleceu em 2001, com 92 anos de idade.
Entre os seus feitos regista-se o haver escoltado Martin Bormann para a Argentina.
Autor de numerosas publicações, entre as quais Serrano Suñer en la Falange Los 7 días de Salamanca, Madrid, Gregorio delToro, editor,1976 e obras sobre a temática taurina como Marcial Lalanda há dicho. El ocaso de la fiesta. Medio siglo viendo toros, Edição Burladero, n.º 1, 1967 e Esencia de hacer toreros. Rafael Sánchez Pipo (de el «Cordobés» a José Fuentes). Madrid, 1966.
Em Março de 1979 publicaria, pela editora Plaza & Janes, S. A. um livro de memórias, denominado Memorias de un agente secreto. Curiosamente esse seu texto é praticamente omisso quanto à sua intervenção e, em geral, quanto à passagem do Duque de Windsor por Lisboa, excepto numa intrigante referência.
Na verdade, citando um seu contacto alemão, Wilhelm Oberbeil, refere que este lhe haveria dito em Rotard-Egeren, quando Schellenberg - «o amigo de nunca de Canaris» - havia assumido a direcção da Abwher: «Como lo oliste? Londres: entre los objetivos que se me encomiendam figura el rapto del Duque de Windsor».
O regresso, segundo a carta subscrita pelo Marquês de Estella em 24 de Julho, passava por uma inocente viagem que o Duque deveria fazer até à cidade da Guarda, de onde seguiria em turismo casual até Ciudad Rodrigo. Aí o esperaria Don Miguel e aí mesmo receberiam instruções «do Ministro» mais detalhadas quanto ao destino a cumprir.
A correr tudo bem, era um novo cenário de mudança que se desenharia: a Guerra seria ganha pelos III Reich, Edward VIII retomaria o trono de Inglaterra e Don Miguel, o amigo espanhol, substituiria Francisco Franco, assim retomando curso a força nova da «falange».
Consciente do alto plano que está então em curso e dos objectivos finais do mesmo, ao partir para Portugal, o jornalista espião, já na altura um agente secreto profissional, receberia de Canaris a confirmação de que «Ribbentrop pensava que era uma cartada importante ter o Duque na Alemanha», e que o próprio Hitler teria sancionado a iniciativa.
Só que no seu espírito as incertezas são significativas. Logo uma delas parte da convicção pessoal, algo insólita, de que «a Duquesa era um agente secretas dos americanos».
A verdade é que nada consegue.
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Na capital do Reich as preocupações crescem em espiral.
Há um contra-relógio a vencer.
Era então a altura de fazer avançar um peso pesado.
Berlim tinha que jogar em força.
Por isso, um agente alemão então em ascensão de carreira foi para isso mesmo despachado para tratar do assunto que se havia embrulhado nas mãos dos espanhóis. Tratou-se de Walter Schellenberg, que já estava mobilizado para o efeito. 
Walter Schellenberg nasceu em 1910, filho de um construtor de pianos. Jurista, viria a ser o chefe da RSHA, os serviços de informações de Himmler. Esteve em Lisboa em 1938 e em JULH40. Foi condenado pelo Tribunal de Nuremberga. Morreu em Turim em 1952. 
Quando chegou a Lisboa, com trinta anos, tinha já atrás de si um currículo significativo na área das informações. Era membro das SS desde 1934 e desempenhara funções de adjunto de Himmler, estando então investido no cargo de adjunto da secção VI do RSHA (Reich Sicherheit Amt), incumbido das funções de contra espionagem no exterior. Em 1940 coubera-lhe a redacção da lista especial de cidadãos britânicos a prender pelos nazis em caso de invasão da Grã Bretanha.
Escreveu um livro de memórias, que na edição americana foi chamado de The Labyrinth, saído em edição americana em 1956 pela Harper’s and Bros.
A edição de tais memórias e a revelação do plano para o rapto do Duque de Windsor gerou ondas de choque que ainda hoje se não desvaneceram completamente. Nesse mesmo ano faleceria Sir Walter Monckton, o seu rival na operação.
Curiosamente, na edição americana do livro, consta a anteceder o capítulo oitavo a seguinte advertência do editor «no capítulo seguinte fazem-se algumas referências e atribuem-se opiniões a Ribbentrop acerca da atitude do Duque e da Duquesa de Windsor em relação à Alemanha nazi. Nenhuma credibilidade deve ser atribuída às palavras emanadas de uma tal fonte, e quase não deve ser sublinhado que não há qualquer sombra de verdade na grotesca interpretação dos acontecimentos que Ribbentrop escolheu - ou diz ter escolhido - em relação à visita dos Duques de Windsor a Portugal em Julho de 1940 (…)».
O Regierungsrat Walter Schellenberg chega numa sexta feira, 26 de Julho. Saira de Berlim num avião especial, via Lyon, Marseilles e Madrid. 
As instruções que recebera haviam sido comunicadas directamente pelo Reichminister Joachim Ribbentrop, com a aprovação final de Adolf Hitler. Arguto, não deixara de reportar directamente a Reinhard Heydrich, chefe da RSHA (Reichssicherheithauptamt), o órgão coordenador de segurança que englobava o SD (Sicherheitdienst), a SIPO (Sicherheitpolizei), e a GESTAPO (Geheimen Staatspolizei).
As suas ordens são claras, segundo ele o revela no livro de memórias: convencer o Duque a instalar-se num país neutral como a Suiça. Só que, Ribbentrop, ao mandatá-lo, dissera-lhe expressamente: «se o serviço secreto britânico tentar frustar de qualquer modo o Duque quanto a tal propósito, então o Führer ordena que tente contra-operar face aos planos britânicos, mesmo que com o risco da sua própria vida, e, se necessário com o uso da força. O que quer que aconteça, o Duque de Windsor deve ser trazido são e salvo para o país de sua escolha. Hitler atribui a maior importância a esta operação, e chegou à conclusão, depois de uma séria reflexão, e que se o Duque se revelar hesitante, ele próprio não terá objecções a que você ajude o Duque a chegar à decisão certa por coacção – mesmo pela ameaça da força ou pela própria força, assim as circunstâncias a mostrem aconselháveis».
Foi esta a ordem de batalha e a isso se resume a noção do rapto.
Em suma, Schellenberg não veio a Lisboa para raptar o Duque, mas poderia fazê-lo, como último recurso».
Um alto funcionário português, seu amigo, arranja modo de ele ficar, discretamente, na casa - imagine-se só - de um emigrado judeu holandês.
O país não lhe é estranho, pois já aqui teria estado no Outono de 1938.
Desde o dia da sua chegada ocupa-se denodadamente ao caso daquele a quem dá o nome de código algo bizarro e ridículo de Willi.
O plano inicial alemão passava por dois momentos: primeiro gerar no Duque a decisão de recusar a ida para as Bahamas, depois convencê-lo, sob falsos pretextos, a sair para Espanha, onde lhe seria dado o destino que se mostrasse mais proveitoso para o III Reich. A ideia de rapto não estava já então de modo algum afastada.
O primeiro desiderato não seria difícil. O segundo teria de contar com a colaboração dos espanhóis e sobretudo exigia um pretexto plausível. E aqui já tinha entrado em acção «el Tigre» e Angél de Velasco, o agente secreto dos alemães em Madrid. 
Só que, apesar de sitiado, o Duque não se deixa manipular com facilidade.
Falhada a intervenção de Velasco, Schellenberg assume agora o comando das operações. A sua acção era dupla: por um lado competia-lhe concretizar aquilo que Velasco falhara, isto é, garantir que o Duque aceitasse a ideia de se mudar para Madrid, por outro evitar que os ingleses levassem a melhor no plano da colocação do Duque nas Bahamas.
Para a sua missão, Schellenberg contava com a capacidade de intimidação dos Windsors, a quem era importante fazer crer não só que os britânicos planeavam o seu assassinato, como ainda que a viagem marítima para as Bahamas era recheada de graves perigos, o menor dos quais o afundamento do barco por submarinos alemães, dada a lista de judeus que tomariam assento no Excalibur.
Desconfiado de Agostinho Lourenço, Schellenberg só pode relacionar-se com segurança com José (Ernesto do Vale Teixeira) Catela, o número dois da PVDE com quem julga ter afinidades ideológicas. Nos seus relatórios refere-o ironicamente como «C», ironicamente o clássico designativo do MI6 britânico …
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Agostinho Lourenço, de seu nome Agostinho Lourenço da Conceição Pereira era o director da PVDE.
A lista telefónica de 1938 dá-o como residente na Avenida Barbosa du Bocage, curiosamente a rua onde, uns números adiante, o anarquista Emídio Santana faria accionar em 1937 a bomba contra o Presidente do Conselho Oliveira Salazar, num atentado a que este escaparia ileso.
Lourenço nasceu em 1886 e viria a falecer em 1964.
No meio, uma vida dedicada à causa da segurança do Estado Novo.
Militar de carreira, da Arma de Infantaria, participaria na I Guerra Mundial.
Em 1931 faz entrada nos serviços de Polícia, e é colocado na PSP.
De seguida passa para Director da «Polícia Internacional», organismo incumbido de actividades repressivas de cunho político, na qual seria ulteriormente integrada a «Polícia de Informações».
Em 1933, o Estado Novo faz plebiscitar a sua Constituição Política, legalizando o «putsch» do 28 de Maio de 1926.
Nesse ano é criada a «Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado» (PVDE) e Lourenço nomeado o seu Director, mantendo-se em funções até ao termo da Guerra e transitando para a entidade que, sob o nome de PIDE («Polícia Internacional e de Defesa do Estado»), lhe sucedeu. Sairia em 1950.
Maria Conceição Ribeiro no artigo crítico que lhe dedicou no «Dicionário de História do Estado Novo» (dirigido por Fernando Rosas e José Maria Brandão de Brito), apodá-lo-à de «grande organizador, transformando uma estrutura amadora e bastante inepta num corpo que, embora mantendo sempre muitos dos vícios originais, evoluiu no sentido de uma maior eficiência».
Personagem controverso, são-lhe atribuídas simpatias anglófilas, a que não é alheia a circunstância de haver sido inclusivamente titular de uma condecoração inglesa, a de «Honorary Companion of the Royal Victorian Order».
Em 1937 representaria, aliás, o nosso país na reunião anual da Comissão Internacional de Polícia, em Londres. Asseguraria a presença do país na Interpol.
Tentando desenvolver habilmente esta faceta útil à causa aliada o Embaixador britânico Ronald Campbell, durante o tempo em que desempenhou funções em Lisboa convidá-lo-ia mesmo a visitar Inglaterra, no que encontrou a anuência de Oliveira Salazar.
Interlocutor privilegiado do Presidente do Conselho, é por si que passam os principais «dossiers» referentes nomeadamente às redes de espionagem estrangeiras em Portugal.
Arguto soube fazer suficiente vista grossa às actividades do Eixo, mas não deixou de tomar medidas que favoreceram no essencial o esforço dos Aliados. A seu jeito participaria também na «neutralidade colaborante», com toda a contradição dos complexos equilíbrios que tal política pressupunha.
Muitos dos casos intrincados de contra-espionagem passaram-lhe directamente pelas mãos.
Em folhas dactilografadas, sem timbre nem marca de origem, com os nomes dos visados escritos em maiúsculas, Lourenço, em despacho directo com o Presidente do Conselho, teve de fazer face a muitas das complicadas questões que se digladiavam na altura quanto à política externa portuguesa.
Mas em 1952, já liberto, Agostinho Lourenço pode finalmente viajar. «Há já longos anos que projectava dar um passeio à volta do Mundo. Este apetite viera-me do que lera acerca do Oriente e do desejo de tomar contacto com outras gentes, outras civilizações e outros costumes», escreveu.
Arrancaria - hoje a data tem um sabor irónico - no dia 28 de Setembro.
De tudo o que viu, viveu e sentiu, lançou em notas que publicaria em 1954, sob o título «À volta do Mundo», em edição da firma «Fernandes & C.ª», firma proprietária da Papelaria Fernandes, à qual sua família estava ligada por laços comerciais.
Sabedores da viagem, os comunistas portuguesas não deixariam de consignar no seu «Avante» de Dezembro de 1952 um apontamento a seu propósito que, à luz de hoje, é singular. Sob o título de «O Fascismo prepara novas provocações contra o grande povo chinês», escrevia-se no periódico clandestino do PCP: «Obedecendo às ordens dos seus patrões norte-americanos, o governo de Salazar tem facilitado na cidade de Macau a acção provocadora dos fascistas de Chang-Kai-Chek contra o governo chinês e mandou agora a Macau o chefe supremo da PIDE, capitão Agostinho Lourenço, para aí organizar a repressão contra os chineses que lutam pela incorporação da cidade chinesa de Macau na República Popular da China e para organizar, por intermédio dos chineses fascistas que se encontram refugiados em Macau, acções de sabotagem e de espionagem na China Popular. Cumprida esta missão, Agostinho Lourenço dirigiu-se a Washington a dar conta da sua missão aos patrões americanos e a receber novas ordens».
Irónico, Lourenço lança no prefácio do livro, em que transcreve este texto do PCP, em estilo sarcástico «à Direcção desse jornal apresento, desvanecidamente, os meus agradecimentos pela atenção, ao mesmo tempo que lhe endereço as minhas felicitações pelo “faro” demonstrado e pela perfeição do seu serviço informativo. E eu que tudo fizera para camuflar os meus desígnios».
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Eficaz, Schellenberg reúne em pouco tempo um staff de cerca de vinte agentes. Um seu contacto japonês fornece-lhe informações sobre o interior da residência e seu ambiente.
Não é seguro quem haja sido. Porém no seu livro sobre o Duque de Windsor, Martin Allen, refere que na vivenda trabalharia então um cozinheiro japonês de nome Jikuro Suzaki.
Suzaki haveria sido recrutado nos anos trinta por Kurt Janke, do SD e colocado posteriormente em Marrocos, onde se infiltrou junto das autoridades francesas.
Sobre Janke foi recentemente proferida por Mark Hull no Departamento de História da Universidade de Saint Louis um conferência intitulada Finding Kurt Janke: German Espionage in America During World War .l
A central de espionagem nipónica em Lisboa processava-se, durante a Segunda Guerra Mundial, através da Legação daquele país.
Dirigida por um diplomata com o cargo de Ministro, Morito Morishima (a PVDE identificava-o como Mosishima), a Legação albergava também o Conselheiro Kotaro Orio, este figura proeminente na condução dos negócios oficias e ostensivos de natureza diplomática. No que se refere aos assuntos de natureza militar, estavam directamente a cargo do adido militar, o tenente coronel Kaoki Matsumyana e de Yoshida Mishima, residente na Rua Marquês de Subserra, nº 10. Este último, devido ao seu comportamento, causou sucessivos embaraços oficiais. Peças integrante do conjunto, os Secretários da Legação, Nakane a quem eram imputadas simpatias pró soviéticas e Komine, que alegadamente conseguiu uma profícua ligação directa a um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
No campo das informações, eficiente, monta então, com a colaboração de Paul Winzer, Heineke e Bocker da Gestapo em Madrid, uma rede de 18 agentes.
No próprio dia da sua chegada já está em acção e entrevista-se com o Embaixador alemão em Lisboa, von Huene. O aristocrata embaixador mostra-se surpreendido com a autoridade que havia sido conferida a Schellenberg, mas rende-se à sua inteira disposição.
A operação de convencimento do Duque tem então lugar. É um modelo de mestria no campo da guerra psicológica.
Tudo se mobiliza para o efeito.
Suposto permanecer em Portugal o tempo necessário a arranjar-se uma viagem para o seu local de destino, o Duque toma, porém, sucessivas iniciativas que parecem demonstrar que a sua vontade agora é a de se preparar para uma longa estadia.
Assim a 27, inopinadamente, chama «uma camioneta para transportar toda a bagagem para o Hotel Aviz» em Lisboa, onde já desde manhã se encontravam as malas do seu ajudante o capitão Wood. A decisão de mudança havia sido conhecida no dia 25, após um jantar em que participara o Embaixador britânico, Sir Walford Selby e o gerente do Hotel Palácio do Estoril, George Black.
Aparentemente, um tal passo seria favorável aos desígnios alemães, pois indiciaria que o augusto casal estava disposto a perpetuar a sua permanência em Portugal. Mas, na verdade, para Schellenberg a situação é altamente preocupante: não só o Duque ficaria agora fora do seu confinamento geográfico, onde melhor seriam monitorados os seus movimentos, como inclusivamente iria plantar-se num Hotel onde o «Intelligence Service» britânico tinha estendidas as suas redes.
Foi assim accionada uma operação de emergência, orientada a manipular psicologicamente, sobretudo a Duquesa, fazendo-a acreditar em que medida o Hotel era um lugar perigoso, onde poderiam correr inimagináveis riscos, incluindo o de serem envenenados.
Angél de Velasco, mandado chamar de emergência, volta à tona, e chega a 28, agora com uma carta de Miguel de Estella, Primo de Rivera. 
Nesta, incisivo, Don Miguel insiste com o Duque para que venha para Espanha, dando-lhe inclusivamente pormenores quanto ao melhor percurso para a viagem e sugere mesmo, como disfarce, que Suas Altezas façam a viagem de Lisboa a Coimbra e daí à Guarda com o pretexto de - imagine-se só ! - irem pescar ou caçar, pois que chegados a esta última cidade alguém os passará para Ciudad Rodrigo.
Com a carta nas mãos, o Duque não pode estar mais surpreendido, a ponto de a ler por três vezes. Apreensivo, pede 48 horas para pensar.
Nas suas memórias, defendendo como leoa a reputação do homem que por causa de si abdicara do trono britânico, a Duquesa confia: David estava convencido de que os alemães estariam por detrás desta oferta de residência em Espanha, mas «considerava que este era mais um dos divertidos exemplos da habitual falta de cálculo dos alemães acerca do carácter dos britânicos».
Tenha ou não sido assim, o certo é que, entusiasmado com esta não recusa imediata, Schelleberg, preocupado, telegrafa para Berlim.
A hora é de aflição para os ingleses. O jogo agora é de tudo ou nada.
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Alertada para o crescendo dos acontecimentos Londres decide-se a agir.
Sir Walter Turner Monckton, um advogado então envolvido com os serviços secretos britânicos e que havia sido advogado do próprio Duque é mandado seguir para Lisboa. A ordem vem directamente de Winston Churchill.
Sir Walter Monckton, com quarenta e nove anos à data, detinha então o posto de Vice-Director do Ministério da Informação, depois de uma brilhante carreira no campo da Advocacia. 
Desde 1932 conselheiro jurídico do Duque, conhecia-o desde os tempos comuns em Oxford e tivera uma acção importante no aconselhamento do monarca quando da grave crise que este propiciou ao enamorar-se pela divorciada americana Walis Simpson e que levaria à sua abdicação. Com o advento da guerra tinham-lhe sido atribuídas funções no domínio do «debriefing» de prisioneiros e internados.
Desempenhou várias missões especiais.
Conhecedor delas, o Duque de Windsor chegou mesmo a sugerir que, se ele escrevesse as suas memórias, deveria intitulá-las Odd Jobs I Have Done.
Mas na verdade o advogado não chegaria a escrevê-las.
A tarefa recairia sobre Lord Birkenead, que sob o título Walter Monckton, The Life of Viscount of Brenchley, as faria editar em Abril de 1969 pela Weidenfeld and Nicolson.
A sua missão: garantir que o Duque resista às tentações que lhe estão a ser lançadas pelos espanhóis e cumpra o prometido, aceitando ocupar o seu posto nas Bahamas. Manda-o, Wiston Churchill em pessoa.
A viagem é arranjada com urgência.
Walter segue de Poole a Lisboa no hidroavião.
Chegado a Cascais no mesmo dia em que Velasco entrega ao Duque a carta de Estella, Monckton não perde tempo. Ficará uma semana no nosso país.
Equivocado, Schellenberg no dia da chegada do britânico telegrafa para a Alemanha chamando-lhe «Sir Walter Monckstone» e qualificando-o como um «Ministro inglês». Pior, dá conta de que, tal como a polícia portuguesa, ele também estava convencido de que o nome era um pseudónimo.
Mais perspicaz, o Embaixador alemão em Lisboa, von Hoyningen Huene complementa a informação com dados mais seguros e num telegrama cifrado, expedido no mesmo dia, esclarece que o recém chegado personagem era conselheiro jurídico do Duque antes da sua abdicação e que «esta visita tem íntima ligação com a iminente partida do Duque para as Bahamas».
Em matéria de equívocos, Monckton não perdoa. No livro das suas memórias, que foi escrito por Lord Birkenhead não se exime de dizer que as confusões na cabeça de Schellenberg eram tais que ele imaginou mesmo que o Duque era suposto ser nomeado governador das Bermudas. E de facto é isso que está no livro de memórias do alemão, que o refere a propósito de uma sua conversa em Madrid com o embaixador alemão na capital espanhola, von Stohrer.
Contra operando, faz os esforços possíveis para convencer Sua Alteza de que a viagem par a Espanha faz parte de um plano alemão para o assassinar, teoria que não é difícil de sustentar ante a confusão reinante.
Tendo pedido quarenta e oito horas para responder a Velasco, cercado de dúvidas e de informações contraditórias, o Duque toma enfim a sua decisão final. De uma vez por todas tomará assento no Excalibur e ocupará o seu posto como Governador Geral.
Desesperado, Schellenberg tenta todos os meios. Expondo já toda a trama de contactos reune-se com Catela e com o próprio Duque, só para ficar convencido que já é tarde de mais. 
Colaboradora, a PVDE, sob a acção do capitão Catela, aproveita o ensejo para aprisionar alguns supostos espiões britânicos, desta feita com o fino de propósito de solidificar a tese de «complot» britânico contra a vida do monarca.
E, para que a ameaça tenha uma evidência real, por conta dos alemães são apedrejadas as janelas da casa, lançando assim uma ambiência de ameaça latente.
Para a concretização da sua manobra, Schellenberg conta com uma rede de vinte agentes e com a colaboração de um agente japonês que lhe fornece inclusivamente um «croquis» do interior da vivenda, possibilitando-lhe assim mais fáceis movimentos.
Só que os ingleses, ágeis, contra-atacam.
Sem perda de tempo, jogando uma cartada típica de advogado, Monckton procura, sem rebuços, o próprio Marques de Estella e pede-lhe, na frente do Duque, provas tangíveis, que sabe ele não ter, dos atentados que vem referindo, para que Sua Majestade possa ter, ao menos, uma evidência palpável a legitimar os receios de que está inundado.
Dizimado o adversário, pela demonstração de que afinal se trata de especulações sem fundamento, Monckton avança então com uma proposta de protecção à pessoa do Duque e sua comitiva, na forma de dois experimentados detectives da Scotland Yard, que seriam mobilizados especificamente para tal efeito. E confia, enfim, que tudo isto sossegue o monarca e o convença a aceitar o posto para o qual o governo de Londres o destina.
Para rematar, tenta então firmar no espírito dos Windsor de que um plano para um atentado existia sim, mas viria da parte dos nazis.
O conhecimento mais pormenorizado do plano veio a lume quando foram revelados documentos alemães hoje publicados como Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, série D, volume X, Junho, 23 a 31 de Agosto de 1940.
E, na verdade, o trabalho persistente de argumentação gera os seus efeitos.
Para tal, jogam a favor duas cartas de que vem munido. Uma do próprio rei Jorge VI, mais formal, outra, mais incisiva, do Primeiro Ministro Winston Churchill.
Nesta, o Primeiro Lorde do Almirantado adverte o monarca quanto aos perigos dos reiterados comentários que vinha semeando quanto ao seu pensamento político mais íntimo e os riscos de que tais «apartes» pudessem ser usados em prejuízo da sua posição. A missiva, neste particular, é sibilina: «muitos ouvidos atentos e inamistosos apreciarão registar quaisquer sugestões de que Vossa Alteza tem uma perspectiva acerca da Guerra, dos Alemães e do hitlerismo diversa da que foi adoptada pela Nação e pelo Parlamento britânicos».
Vergado ao fogo de barragem desta guerra psicológica, o Duque na tarde de 29 faz expedir para Londres, com destino a Churchill, um curto telegrama que tem o sabor de uma mensagem de rendição «Monckton chegou e concordo em viajar por barco em 1 de Agosto, tal como combinado».
Emparedados pela pertinácia ducal, os Alemães jogam então a cartada final, a de pura e simplesmente o raptarem.
A paternidade da ideia nunca ficou totalmente estabelecida. Nas suas memórias Schellenberg atribui-a directamente ao Führer.
Não o virão a conseguir.
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Na noite de 31 ninguém dorme na Embaixada alemã na Rua do Pau de Bandeira à Lapa. Os planos sucedem-se, os mais diversos. Uns tentam ainda a reiterada ideia do convencimento psicológico, outros vão já no sentido ordenado pelo Chanceler.
No dia seguinte o barco partirá pelas 18H30.
Regressado a Lisboa, Don Miguel Primo de Rivera tenta ainda uma ajuda. Para os alemães há esperanças em convencerem o próprio «chauffeur» do Duque a recusar-se a transportá-lo para o navio «Excalibur» e assim faze-lo perder a viagem ou, em alternativa, poderia ser preso, com a cumplicidade das autoridades portuguesas, um putativo bombista a bordo do navio, para que fosse possível explorar, já na 25ª hora, a tese estafada dos perigos da travessia.
Mas nada vai funcionar.
O Duque de Windsor, Eduardo VIII, partirá para as Bahamas.
Em 30 de Julho, no primeiro contacto com os jornalistas, o Duque profere o seu protocolar «Adeus! Muito obrigado por tudo. I am afraid those are the onliy words I know of your language. Muito obrigado».
O adeus cerimonial a Portugal seria dado numa breve recepção no dia 31 de Julho, no Hotel Aviz, então uma jóia da hotelaria portuguesa e palco de tantos personagens ligados ao mundo oculto da espionagem durante a Segunda Grande Guerra.
O local tornou-se famoso nomeadamente por ali ter residido, num andar, o milionário arménio Calouste Gulbenkian. A sua comitiva integrava Miss Isabelle Theis, secretária, Helène Wilhelm, empregada de quartos, de nacionalidade francesa, Eugène Bruneau, «valete» e enfermeiro, de naionalidade francesa, José Martinez, correio intérprete, de nacionalidade espanhola e Mehmed Saradjoglu, motorista de nacionalidade turca.
No campo alemão reina a maior consternação.
No seu telegrama de 2 de Agosto, expedido a poucos minutos das quatro horas da tarde, o chefe da Legação alemã em Lisboa dá conta das tentativas que fizera, com a intermediação do banqueiro Ricardo Espírito Santo, anfitrião do Duque no Estoril, para o reter na Europa, mas que tudo isso se tornara inútil, graças ao persistente esforço dos britânicos e nomeadamente de Sir Walter Monckton que viera a Lisboa numa propositada missão destinada a forçar Sua Alteza a aceitar o posto que Winston Churchill lhe oferecera nas Bahamas. 
O Excalibur levanta ferro e com ele rumam mar alto as esperanças e as ilusões de um rei germanófilo em Inglaterra.
O Excalibur, sob o comando do capitão S.N. Groves, fez uma viagem para Nova York, com passagem prévia pelas Bahamas, tendo o Governo britânico suportado o preço do desvio, o que implicou a soma redonda de 7 500 dólares, mais um seguro de 10 000 dólares.
Derrotado, Schellenberg, ao regressar a Berlim, seria, mesmo assim, promovido por Himmler à categoria de Director do serviço em que estava integrado, a Secção VI da RSHA. Vitorioso, Sir Walter Monckton subiria um grau no seu posto, promovido a Director do Ministério da Informação.
Terminada a Guerra, o britânico iniciaria uma carreira no sector bancário, no Midland Bank. O nazi seria julgado em Nurenberga, e condenado a seis anos de prisão. Solto em 1950 morreria em Itália dois anos depois, apenas com quarenta e dois anos de idade. 
Desde então o história tem vindo a ser alvo das maiores especulações, tendo tudo começado com a publicação de documentos oriundos da Chancelaria nazi - e publicados pelos «Stationery Office» britânico - os quais evidenciariam o necessário para permitir reconstituir toda a trama do rapto.
Acto contínuo à divulgação colocou-se a questão do eventual comprometimento de Oliveira Salazar na história, imputando-se na imprensa britânica que o Presidente do Conselho haveria mesmo a propósito recebido um telefonema da parte de Nicolás Franco para o efeito de retardar a presença em Portugal do Duque e de sua mulher.
Desfazendo o equívoco, o então embaixador em Lisboa, Sir Walford Selby viria a afirmar que «I do not believe that Salazar was in it for a moment. I am perfectly certain that Dr. Salazar would not touched any part of the dirty thing» (ofício de Theotónio Pereira de 01.08.57, para o MNE, in MNE/AHD/Armário 59, maço 372).
Selby faria mesmo mais: regressado da Rodésia, onde estava em funções, consideraria como «falsidades grosseiras» a alegação de que o Governo português tivesse tido algo a ver com o rapto.
E escrevendo de Salisbury (Lucas Green House, P.O. Greendale) em 08.08.57 para o Dr. Cruz Leite, usa mesmo o adjectivo de «quite monstruous» para a alegação em causa. Nessa carta consigna que «I have no idea of the role Senhor Ricardo Espírito Santo may have played in the plot conceived by Ribbentrop but as I have pointed out I had no reason to bellieve that he would constitute himself a German agent to kidnap the Duke».
Na vivenda junto à «Boca do Inferno» reina, enfim, a paz.
Os dias agitados tinham, enfim, cessado.
Hoje resta dele uma vaga memória, com muita fabulação à mistura.