"Klop" alias Jona Ustinov em Lisboa


A maioria das pessoas conhece o actor de cinema Peter Ustinov, que se popularizaria na representação da personagem Hercule Poirot, a magistral figura de detective privado belga inventado por Agatha Christie; mas já a pessoa de seu pai é muitíssimo menos conhecida, nomeadamente a ligação deste aos serviços secretos britânicos.
A primeira vez que li uma referência a "Klop" von Ustinov foi no livro de memórias de Desmond BristowThe Game of Moles. Agente do Mi6 em Lisboa durante a Segunda Guerra, encontrei-me com ele na sua residência de reformado, em Periana, Malaga, Espanha.
Fiz a longa viagem propositadamente, em 1993, depois de ter lido uma carta sua ao director do jornal britânico Daily Telegraph sobre o relevante papel do coronel Dudley-Clark ao serviço da contra-espionagem anti-nazi em Madrid e sendo-me assim possível localizar o local exacto da sua permanência [ao lado publico uma foto desse encontro, tirada na praia, perto de Torre de Molinos].
Recebeu-me amavelmente e obsequiou-me com uma refeição, na companhia de sua mulher Betty. 
Falámos detalhadamente. O inesperado haveria de surgir depois, quando encontrei na Foyle's, em Londres, na secção de História militar, um exemplar daquele seu livro, agora em edição "hardcover", mas autografado. Inesperado, porque, garantiu-me, quando lhe telefonei directamente da livraria, nunca estivera naquele local a autografar livros, nem ali se vendiam livros usados. Quando nos encontrámos, dedicou-mo, com a alusão irónica, bem ao seu estilo «spies like us». Nesse livro, Bristow detalha o encontro em Lisboa com "Klop" em meados de Fevereiro de 1944, mas o essencial fica por desvendar.
"Klop", de seu nome Jona [Ivan Platonovich em russo], era originário da aristocracia russa e desempenhou naquele período funções de agente do Mi5, o serviço de segurança britânico, sob o nome de código U-35. Deslocou-se a Lisboa para uma missão que "Derry" - o peti nom de Desmond - desconhecia, pois apenas lhe foi revelado pelo seu chefe Charles de Salis que lhe deveria dar protecção, nomeadamente ante qualquer investida da polícia política portuguesa, a PVDE * reportando o que apurasse ao ministro Henry Hopkinson.
Charles de Salis, com quem me encontrei também na sua residência no Sul de Inglaterra [ao lado uma foto sua], era a antena local do Mi6, colocado na Embaixada sob a função de funcionário da secção de passaportes, o Passport Control Office, a cobertura oficial para quem desempenhava aquele tipo de missão. Terminaria a sua carreira ao serviço do Foreign Office no Brasil.
O nome Ustinov ficaria, porém, como mera reminiscência porque não havia detalhes sobre a natureza do seu trabalho nem sobre a profundidade das suas ligações.
Ora é hoje claro que a viagem de Ustinov pai a Lisboa se ficou a dever a instruções de Harol Russel "Kim" Philby, o responsável na Secção V do Mi6 - serviços de contra-espionagem - pelo desk ibérico e uma "toupeira" soviética desde os tempos em que estudara na Universidade de Cambridge, um dos membros do "grupo dos cinco" que trabalharam na comunidade de intelligence britânica clandestinamente ao serviço da URSS.
Isso já me tinha sido dado a perceber ao ler o livro escrito em 1999 por Rufina Philby - a russa com quem fez vida comum após a sua fuga para Moscovo - intitulado The Private Life of Kim Philby - em que esta relata uma carta por ele escrita, a 4 de Novembro de 1979, a um seu "discípulo" britânico, designado como "Michael", de cuja preparação cuidava, a instâncias do KGB. Nesse carta, Philby admite o papel instrumental que teve na missão de "Klop" a Portugal «onde havia um grupo de alemães que pensavam sobretudo em salvar a sua pele".
Só que, visto sob esse ângulo, ainda estava muito por dizer: o objectivo da deslocação teria de ser necessariamente mais específico.
Seria em 1994, ao ter lido o livro do jornalista da agência soviética Tass Genrikh Borovik - The Philby Files que se me revelou a extraordinária importância dessa missão em Lisboa.
Citando um telegrama secreto [Top Secret N15, inc N158/148 7.01.44], Borovik revela que tal fora aprovado em Dezembro de 1943 pelo Foreign Office britânico com  instruções específicas no sentido do agente U-35 não se comprometer em quaisquer discussões sobre uma possível paz com a Alemanha e focar-se apenas em tarefas de recolha de informação. Sucede que o ambiente de uma possível paz negociada entre a Grã-Bretanha e a Alemanha já circulavam. 
Eis, porém, que acaba de ser publicada, em segunda edição, um biografia de "Klop" Ustinov, da autoria do jornalista Peter Day, de que The Telegraph publica uma recensão [ver aqui], a qual abre novas pistas para esse tema, se não definitivas, pelo menos interessantes.
O encontro entre Bristow e Ustinov deu-se no Palace Hotel, aos Restauradores, um local habitual de "rendez-vous" para agentes ao serviço da guerra secreta. Justificando o perfil da sua missão, este, mais preciso, deu conta de que viera para se encontrar com alguns amigos alemães que «estavam envolvidos numa conspiração para assassinar Adolph Hitler»; o seu interlocutor confia, porém, às suas memórias, que lhe respondera não querer saber a esse respeito mais do que o necessário. Pouco crível, mas nem a mim me deu conta de mais pormenores quando da nossa entrevista no Sul de Espanha.
Um episódio anedótico haveria de assinalar o encontro entre os dois homens dos serviços secretos ingleses: envergando um vistoso casaco de astrakan, fumando cigarros Sobranie - tabaco negro russo com a ponta dourada que ainda comprei nos idos anos da minha juventude na Caravela ao Rossio - ambos com nomes a denotar origem russa, foram rapidamente tomados por um funcionário da polícia portuguesa como agentes soviéticos ao serviço do então temido comunismo internacional e conduzidos, sob essa suspeita à esquadra. Libertos, seriam, no entanto seguidos, com pouca discrição, por quatros agentes da PVDE que se faziam conduzir num Citroën preto, quando no dia seguinte se deslocaram ao Estoril, onde "Klop", conseguindo, com a colaboração de Desmond, iludir a vigilância policial, teve um encontro no Tamariz com o seu enigmático interlocutor, cuja identidade ainda hoje permanece misteriosa.
Quem seria ele? Peter Day, especulativamente, aventa para a possibilidade de ter sido Otto John, advogado da Lufthansa [publico ao lado uma fotografia sua], envolvido na organização que tentara a morte do Führer através de uma bomba colocada sob a mesa de uma sala de reuniões quando de um encontro em que participara Claus Schenck von Stauffenberg
A toda essa complexa história voltarei, até porque já estudei parte do material em que ela se consubstancia. Sobre isso, o papel que na exfiltração de Otto John teve a PVDE, através de Rita Winsor, falei com Charles de Salis. Ante a minha perplexidade - a polícia portuguesa a proteger um conspirador contra Hitler - adiantou-me uma explicação. Não me convenceu. Mas onde está a linha separadora, neste mundo de sombras, entre o verdadeiro e o plausível? Esta a questão.

* No livro de memórias Bristow designa a PVDE [Polícia de Vigilância e Defesa do Estado] como PIDE, nome que só adquiriu em 1945. Peter Day faz o mesmo.